Gênero: Romance
Titulo: Cartas de alguém
19 de novembro de 2013, Guarapari, Espírito Santo
Querido Alguém,
Não sou alguém com quem você converse muito, talvez nem alguém que você veja. Mas ficou insuportável conviver com isso sozinha. É como se não houvesse nada nem ninguém comigo, com quem eu pudesse conversar. Com quem eu pudesse me aconselhar. Sim, eu sei que você não vai me responder, imagino que essa carta esteja embaixo de uma lata de refrigerante qualquer, com uma mancha enorme nos cantos. “É uma carta boba de alguém que eu não conheço” você deve ter pensado. “Ah, é uma carta de amor de uma garota da minha escola, pode rasgar.” você disse a sua empregada ou a sua mãe. Mas eu escreverei mesmo assim, pois, mesmo sabendo que você pode estar jogando essa carta fora... Bom, ao menos eu a escrevi.
Não é a mesma coisa que escrever uma carta à mão, como eu gostaria, como eu acharia mais viável, mas eu fiquei com medo. Na verdade, é a única coisa que eu senti, durante toda a minha vida, sabe por quê? Porque eu tenho pânico de pessoas. Você deve ter percebido que eu não consigo falar quando estou com muitas pessoas. Pois então, é por isso.
Talvez você não se lembre de mim, mas eu lembro de você. Quero dizer, lembro mais da sua fisionomia, é claro. Éramos muito pequenos e, como meu irmão mais novo faz questão de ressaltar, eu não tenho uma boa memória. Sabe, não sei se você lembra, eu era a garota que usava uma lancheira e uma agenda como computador portátil, a garota que vivia chorando por tudo. É, eu sei, eu era mais... Fofa, fisicamente, mas quem não era naquela época? Éramos todos tão pequenos, com quatro ou cinco anos.
Não sei se você fez parte dessa parte da minha infância, mas, sabe, eu era uma criança feliz, embora muito chorona. Em parte, talvez seja por isso que eu tenha esse emocional complicado. Um emocional que piora a cada dia depois que minha irmã foi embora, morar no Rio de Janeiro. Sabe, por um ano eu tinha esquecido minha infância, por um ano eu tive uma amiga verdadeira, por um ano eu tinha uma irmã maravilhosa que foi, sim, minha terapeuta. Talvez seja disso que eu precise, um(a) terapeuta.
Eu sempre fui uma menina romântica, boba e antiquada. Cartas de amor manuscritas, para mim, eram as únicas maneiras de falar para alguém que eu o amava, isso, hoje, nos tempos em que tudo é escrito pelo computador, pelo teclado e mandado com tanta rapidez pela internet, é uma coisa antiquada. Mas isso é o que eu mais apreciei nos tempos antigos. Antigamente tudo era tão romântico, o romance era tão mais simples. É, talvez seja isso que eu espere para mim, algo (ou alguém) romântico, mas nem tanto; que me faça sentir como se vivesse nas nuvens e em terra firme, ao mesmo tempo; algo (ou alguém) que me fale coisas românticas, mas não muito melosas. Eu sei que isso é utópico, mas talvez seja isso que eu espere.
Nunca foi a mesma coisa falar e escrever pra mim. Escrever é sempre mais fácil de me expressar, por isso estou escrevendo esta carta. Esta carta é pra me expressar, mais que isso, me libertar. Me libertar de algo que eu sinto, de algo que eu não consigo me separar, não mais.
Talvez fosse mais fácil se você fosse mais arrogante, mais frio. Mas não, você tinha que ser, como dizem, gente boa e, pra mim, fofo. Sim, eu já gostei de você uma vez, por um longo tempo, eu achava que era uma coisa boba na época, como aqueles namoricos de infância que alguma vez todos temos. Mas não. Por um tempo eu esqueci, minha cabeça enlouqueceu, eu não sabia de quem gostava mais. Eu não sabia se gostava de mim mesma. Foi uma época estranha. Eu estava muito confusa. Na verdade, ainda estou confusa, não sei o que acontece comigo, não tenho certeza de nada.
Não é como ser algumas dessas meninas populares da escola, que sempre sabem o que querem, que sempre tem alguém com quem conversar. Eu não sou assim, não sou decidida. Sou bem mais fechada. Tenho a mentalidade antiga, sim, não entendo nada de tecnologia. Queria ter vivido na época dos meus pais, onde crianças brincavam nas ruas não asfaltadas, onde a infância era sempre bem vivida, sem televisão, sem computador, sem nada, somente imaginação e companhia de outras crianças. Sempre foi o meu sonho ter a infância que eles tiveram, mas não tive.
Além de ter uma mentalidade mais antiga, eu tenho uma mente muito confusa. Não sei se aquela enxerida contou o que ela desconfia, o que eu tenho quase certeza de que é verdade, mas, como eu disse, quase certeza. Eu sinto falta do tempo em que tinha certeza. A certeza é uma dádiva, devia ter aproveitado enquanto a tinha, como não a aproveitei, posso conviver com a dúvida. Porque eu não quero ser aquelas garotas dos filmes da Disney, que ficam apaixonadinhas por alguém que não as veem.
A confusão que eu sinto não se compara a confusão dessa carta. Porque eu me pergunto: “Como uma pessoa não sabe que gosta de outra pessoa?”
Quando eu fiquei de castigo, meu pai disse que só não tiraria minha internet porque não queria que eu ficasse alienada. Me perguntei: “Mais alienada do que já sou?”
Eu sempre fui alienada, essa é a verdade, nunca percebi o que era tudo aquilo que me faziam quando eu era menor, nunca percebi o que fazem comigo... O que eu faço comigo mesma, sempre. Eu fiquei muito tempo sem perceber que eu sofri Bullying, mas realmente não me importo, porque eu mesma fiz isso acontecer. Ou talvez seja coisa da minha imaginação, mas é assim que eu me sinto agora, que minha irmã foi embora. Eu nunca contei isso a ninguém. Como isso é uma carta, resolvi escrever.
O que sentimos nem sempre é algo que se dá pra escrever, mas é o que eu estou tentando fazer, tentando fazer o impossível.
Não é como ser uma pessoa normal que sabe o que sente, ser uma pessoa tão alienada assim, só pode ser alienada na questão dos sentimentos, também, com os próprios sentimentos, até.
Eu não sabia que comecei a gostar de você de novo, até aquela época em que você e seus amigos ficaram gripados, eu estava completamente confusa. No primeiro dia vi você péssimo na sala de vídeo, tive que me controlar muito para não perguntar se você estava bem. Você parecia estar mais vermelho e com o cabelo todo bagunçado. Quando vi você na sala de aula, eu tive que ter muita força de vontade para não me virar o tempo todo para ver se você estava bem. Eu me preocupei com você, pela primeira vez eu me preocupei de verdade com alguém que não da minha família (real ou virtual). Eu achei que ninguém tinha percebido além de mim. Fiquei com medo de estar gostando de você novamente, e era exatamente o que estava acontecendo.
Então os dias foram se passando e eu fiquei me controlando para não ficar o encarando o tempo todo que o via. Porque essa era a minha vontade. Mas a vergonha era maior, vergonha de você descobrir, vergonha de seus amigos descobrirem, vergonha de ser zoada novamente, vergonha do que eu estava sentindo.
E agora estou aqui, com o coração apertado, escutando uma música meio deprimente, pensando em tudo o que eu escrevi. Toda a verdade que eu não consegui falar, mas sim escrever, porque é nisso que eu sou boa.
Talvez você já deva ter percebido quem é que escreveu isso, quem é que teve paciência para escrever uma carta de três folhas para você, quem é que quis escrever isso pra se libertar de algo impossível.
Eu tentei disfarçar, o máximo que pude, tentei ser eu mesma o tempo inteiro. Mas não dá. Talvez, se você tentasse conversar comigo sem a companhia de ninguém... Ou não... Não sei se eu conseguiria falar com você depois disso. Não depois de esclarecer o que eu sinto pra mim mesma.
Não estou dizendo que quero que você venha falar comigo, embora seja isso mesmo que eu queira, não quero que faça algo que não queira. Nunca quis. Ninguém pode te obrigar a nada. Talvez você nem esteja lendo esta parte da carta, mas não importa.
Eu só queria que você fosse menos legal com as pessoas, porque é realmente isso que me fascina. Espero que isso nunca mude, espero mesmo. E sabe quando você defendeu minha irmã? Quando aquele garotinho mais novo mostrou o dedo do meio para ela? Aquilo também foi muito legal. Queria que algum dia alguém faça isso por mim, sabe, me proteger de alguém que esteja me chateando.
Então, imagino que seja isso. Imagino que esta carta possa estar no lixo de sua casa, ou na rua, ou amassada como uma bolinha de papel para jogar nas pessoas, ou queimada. Ou ela pode estar em suas mãos, espero que essa seja a opção mais certa.
Com carinho e admiração
Alguém
19 de novembro de 2013, Guarapari, Espírito Santo
Querido Alguém,
Não sou alguém com quem você converse muito, talvez nem alguém que você veja. Mas ficou insuportável conviver com isso sozinha. É como se não houvesse nada nem ninguém comigo, com quem eu pudesse conversar. Com quem eu pudesse me aconselhar. Sim, eu sei que você não vai me responder, imagino que essa carta esteja embaixo de uma lata de refrigerante qualquer, com uma mancha enorme nos cantos. “É uma carta boba de alguém que eu não conheço” você deve ter pensado. “Ah, é uma carta de amor de uma garota da minha escola, pode rasgar.” você disse a sua empregada ou a sua mãe. Mas eu escreverei mesmo assim, pois, mesmo sabendo que você pode estar jogando essa carta fora... Bom, ao menos eu a escrevi.
Não é a mesma coisa que escrever uma carta à mão, como eu gostaria, como eu acharia mais viável, mas eu fiquei com medo. Na verdade, é a única coisa que eu senti, durante toda a minha vida, sabe por quê? Porque eu tenho pânico de pessoas. Você deve ter percebido que eu não consigo falar quando estou com muitas pessoas. Pois então, é por isso.
Talvez você não se lembre de mim, mas eu lembro de você. Quero dizer, lembro mais da sua fisionomia, é claro. Éramos muito pequenos e, como meu irmão mais novo faz questão de ressaltar, eu não tenho uma boa memória. Sabe, não sei se você lembra, eu era a garota que usava uma lancheira e uma agenda como computador portátil, a garota que vivia chorando por tudo. É, eu sei, eu era mais... Fofa, fisicamente, mas quem não era naquela época? Éramos todos tão pequenos, com quatro ou cinco anos.
Não sei se você fez parte dessa parte da minha infância, mas, sabe, eu era uma criança feliz, embora muito chorona. Em parte, talvez seja por isso que eu tenha esse emocional complicado. Um emocional que piora a cada dia depois que minha irmã foi embora, morar no Rio de Janeiro. Sabe, por um ano eu tinha esquecido minha infância, por um ano eu tive uma amiga verdadeira, por um ano eu tinha uma irmã maravilhosa que foi, sim, minha terapeuta. Talvez seja disso que eu precise, um(a) terapeuta.
Eu sempre fui uma menina romântica, boba e antiquada. Cartas de amor manuscritas, para mim, eram as únicas maneiras de falar para alguém que eu o amava, isso, hoje, nos tempos em que tudo é escrito pelo computador, pelo teclado e mandado com tanta rapidez pela internet, é uma coisa antiquada. Mas isso é o que eu mais apreciei nos tempos antigos. Antigamente tudo era tão romântico, o romance era tão mais simples. É, talvez seja isso que eu espere para mim, algo (ou alguém) romântico, mas nem tanto; que me faça sentir como se vivesse nas nuvens e em terra firme, ao mesmo tempo; algo (ou alguém) que me fale coisas românticas, mas não muito melosas. Eu sei que isso é utópico, mas talvez seja isso que eu espere.
Nunca foi a mesma coisa falar e escrever pra mim. Escrever é sempre mais fácil de me expressar, por isso estou escrevendo esta carta. Esta carta é pra me expressar, mais que isso, me libertar. Me libertar de algo que eu sinto, de algo que eu não consigo me separar, não mais.
Talvez fosse mais fácil se você fosse mais arrogante, mais frio. Mas não, você tinha que ser, como dizem, gente boa e, pra mim, fofo. Sim, eu já gostei de você uma vez, por um longo tempo, eu achava que era uma coisa boba na época, como aqueles namoricos de infância que alguma vez todos temos. Mas não. Por um tempo eu esqueci, minha cabeça enlouqueceu, eu não sabia de quem gostava mais. Eu não sabia se gostava de mim mesma. Foi uma época estranha. Eu estava muito confusa. Na verdade, ainda estou confusa, não sei o que acontece comigo, não tenho certeza de nada.
Não é como ser algumas dessas meninas populares da escola, que sempre sabem o que querem, que sempre tem alguém com quem conversar. Eu não sou assim, não sou decidida. Sou bem mais fechada. Tenho a mentalidade antiga, sim, não entendo nada de tecnologia. Queria ter vivido na época dos meus pais, onde crianças brincavam nas ruas não asfaltadas, onde a infância era sempre bem vivida, sem televisão, sem computador, sem nada, somente imaginação e companhia de outras crianças. Sempre foi o meu sonho ter a infância que eles tiveram, mas não tive.
Além de ter uma mentalidade mais antiga, eu tenho uma mente muito confusa. Não sei se aquela enxerida contou o que ela desconfia, o que eu tenho quase certeza de que é verdade, mas, como eu disse, quase certeza. Eu sinto falta do tempo em que tinha certeza. A certeza é uma dádiva, devia ter aproveitado enquanto a tinha, como não a aproveitei, posso conviver com a dúvida. Porque eu não quero ser aquelas garotas dos filmes da Disney, que ficam apaixonadinhas por alguém que não as veem.
A confusão que eu sinto não se compara a confusão dessa carta. Porque eu me pergunto: “Como uma pessoa não sabe que gosta de outra pessoa?”
Quando eu fiquei de castigo, meu pai disse que só não tiraria minha internet porque não queria que eu ficasse alienada. Me perguntei: “Mais alienada do que já sou?”
Eu sempre fui alienada, essa é a verdade, nunca percebi o que era tudo aquilo que me faziam quando eu era menor, nunca percebi o que fazem comigo... O que eu faço comigo mesma, sempre. Eu fiquei muito tempo sem perceber que eu sofri Bullying, mas realmente não me importo, porque eu mesma fiz isso acontecer. Ou talvez seja coisa da minha imaginação, mas é assim que eu me sinto agora, que minha irmã foi embora. Eu nunca contei isso a ninguém. Como isso é uma carta, resolvi escrever.
O que sentimos nem sempre é algo que se dá pra escrever, mas é o que eu estou tentando fazer, tentando fazer o impossível.
Não é como ser uma pessoa normal que sabe o que sente, ser uma pessoa tão alienada assim, só pode ser alienada na questão dos sentimentos, também, com os próprios sentimentos, até.
Eu não sabia que comecei a gostar de você de novo, até aquela época em que você e seus amigos ficaram gripados, eu estava completamente confusa. No primeiro dia vi você péssimo na sala de vídeo, tive que me controlar muito para não perguntar se você estava bem. Você parecia estar mais vermelho e com o cabelo todo bagunçado. Quando vi você na sala de aula, eu tive que ter muita força de vontade para não me virar o tempo todo para ver se você estava bem. Eu me preocupei com você, pela primeira vez eu me preocupei de verdade com alguém que não da minha família (real ou virtual). Eu achei que ninguém tinha percebido além de mim. Fiquei com medo de estar gostando de você novamente, e era exatamente o que estava acontecendo.
Então os dias foram se passando e eu fiquei me controlando para não ficar o encarando o tempo todo que o via. Porque essa era a minha vontade. Mas a vergonha era maior, vergonha de você descobrir, vergonha de seus amigos descobrirem, vergonha de ser zoada novamente, vergonha do que eu estava sentindo.
E agora estou aqui, com o coração apertado, escutando uma música meio deprimente, pensando em tudo o que eu escrevi. Toda a verdade que eu não consegui falar, mas sim escrever, porque é nisso que eu sou boa.
Talvez você já deva ter percebido quem é que escreveu isso, quem é que teve paciência para escrever uma carta de três folhas para você, quem é que quis escrever isso pra se libertar de algo impossível.
Eu tentei disfarçar, o máximo que pude, tentei ser eu mesma o tempo inteiro. Mas não dá. Talvez, se você tentasse conversar comigo sem a companhia de ninguém... Ou não... Não sei se eu conseguiria falar com você depois disso. Não depois de esclarecer o que eu sinto pra mim mesma.
Não estou dizendo que quero que você venha falar comigo, embora seja isso mesmo que eu queira, não quero que faça algo que não queira. Nunca quis. Ninguém pode te obrigar a nada. Talvez você nem esteja lendo esta parte da carta, mas não importa.
Eu só queria que você fosse menos legal com as pessoas, porque é realmente isso que me fascina. Espero que isso nunca mude, espero mesmo. E sabe quando você defendeu minha irmã? Quando aquele garotinho mais novo mostrou o dedo do meio para ela? Aquilo também foi muito legal. Queria que algum dia alguém faça isso por mim, sabe, me proteger de alguém que esteja me chateando.
Então, imagino que seja isso. Imagino que esta carta possa estar no lixo de sua casa, ou na rua, ou amassada como uma bolinha de papel para jogar nas pessoas, ou queimada. Ou ela pode estar em suas mãos, espero que essa seja a opção mais certa.
Com carinho e admiração
Alguém
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